E que, agora que tem nome, muda tudo.
Existe uma palavra que muitas mães nunca ouviram, mas que descreve com precisão cirúrgica algo que todas viveram. Uma palavra que, quando você encontra pela primeira vez, provoca aquela sensação de "então eu não estava inventando coisa nenhuma."
A palavra é matrescência.
E se ela ainda é nova pra você, esse texto é pra isso.
De onde vem esse conceito
Em 1973, a antropóloga médica norte-americana Dana Raphael usou pela primeira vez o termo matrescence para nomear o processo de tornar-se mãe. Raphael — que também foi quem popularizou a palavra "doula" no vocabulário obstétrico — entendia que a maternidade não era um evento pontual, mas uma passagem de desenvolvimento humano tão profunda e complexa quanto a adolescência.
Só que, diferentemente da adolescência — que tem capítulos inteiros em livros de psicologia, protocolos médicos e uma cultura inteira dedicada a acolher os adolescentes em transformação —, a matrescência ficou décadas em silêncio.
Foi só em 2017 que o conceito voltou à superfície. A psiquiatra reprodutiva Alexandra Sacks, da Universidade de Columbia, publicou um artigo no New York Times chamado "The Birth of a Mother" que viralizou pelo mundo inteiro. No ano seguinte, ela deu uma palestra no TED que já foi vista mais de 1,2 milhão de vezes. A mensagem central era simples e devastadora ao mesmo tempo: nós temos livros inteiros sobre adolescência, mas praticamente nada sobre o que acontece com uma mulher quando ela se torna mãe.
Em 2023, a jornalista científica britânica Lucy Jones foi mais fundo. Seu livro Matrescence: On the Metamorphosis of Pregnancy, Childbirth, and Motherhood — indicado ao Women's Prize for Non-Fiction e eleito um dos melhores livros do ano pelo The New Yorker — se tornou a investigação mais abrangente já publicada sobre o tema. Jones cruza memória, neurociência, biologia evolutiva, psicanálise, sociologia e ecologia para chegar a uma conclusão que a ciência já começava a confirmar: tornar-se mãe é, provavelmente, o evento endócrino mais radical na vida de um ser humano.
O que a ciência descobriu sobre o cérebro materno
Por muito tempo, as mudanças cognitivas e emocionais que as mães descrevem foram tratadas com um sorriso condescendente e o diagnóstico informal de "baby brain" — como se fosse uma espécie de névoa temporária causada pelo cansaço. A ciência, por décadas, simplesmente não pesquisou o assunto com seriedade.
Isso começou a mudar em 2016, quando um estudo conduzido pela neurocientista Elseline Hoekzema e sua equipe, publicado na revista Nature Neuroscience em fevereiro de 2017, entregou resultados que ninguém esperava.
O estudo acompanhou mulheres antes e depois da primeira gestação usando ressonância magnética estrutural. O que os pesquisadores encontraram foi uma reorganização cerebral consistente, significativa e duradoura. A gravidez causava reduções no volume de matéria cinzenta em regiões ligadas à cognição social. Essas mudanças foram tão consistentes que o algoritmo conseguia classificar corretamente todas as mulheres como tendo passado por uma gestação ou não, apenas olhando para o cérebro delas.
Mas há um detalhe fundamental que costuma se perder quando se fala sobre esse estudo: essas reduções não significam perda de capacidade. Elas representam uma especialização. As regiões que se reorganizaram são exatamente as mesmas que respondem ao rosto e ao choro do bebê — as mesmas ligadas à empatia, à leitura de estados mentais alheios e à interpretação de sinais sociais sutis. E as mudanças ainda estavam presentes quando as participantes foram reavaliadas dois anos depois do parto.
Um estudo de acompanhamento, publicado em 2021, mostrou que essas alterações persistem por pelo menos seis anos após o nascimento. Isso não é baby brain. É uma remodelação neural permanente.
Em 2022, Hoekzema e sua equipe publicaram um novo estudo na Nature Communications, desta vez mapeando mudanças na substância branca, na organização das redes neurais e nos metabólitos cerebrais. As alterações mais pronunciadas aconteciam na Default Mode Network — a rede associada ao processamento de identidade, autorreferência e cognição social. Essas mudanças se correlacionavam com os níveis de estradiol no terceiro trimestre e com medidas de vinculação mãe-bebê.
O cérebro materno não está confuso. Ele está sendo calibrado para uma nova função.
Você literalmente carrega seu filho dentro de você, para sempre
Se o que acontece no cérebro já é suficiente para mudar a conversa, o que acontece no nível celular é de outra magnitude completamente.
Durante a gestação, células fetais atravessam a placenta e circulam pelo corpo da mãe. Elas se instalam em tecidos como fígado, pulmão, coração, medula óssea — e, sim, no cérebro. Esse fenômeno se chama microquimerismo fetal, e foi documentado de forma cada vez mais robusta nas últimas décadas.
Um estudo publicado na PNAS em 2012 identificou DNA de origem masculina — de filhos homens — no cérebro de mulheres décadas depois do parto. Essas células não são resquícios passivos. Pesquisas mais recentes sugerem que elas têm funções ativas: são recrutadas para locais de lesão tecidual, parecem participar de processos de reparo e, em alguns modelos animais, demonstraram influenciar o sistema imune e a longevidade materna.
Um artigo publicado na Nature Communications em 2022 mostrou, em modelo murino, que as células maternas que migram para o cérebro do feto também não são um "vazamento" acidental da placenta. Elas exercem funções específicas no desenvolvimento neural do bebê, regulando a homeostase de células imunes cerebrais e apoiando a maturação de circuitos neurais.
Em outras palavras: mãe e filho trocam células entre si durante a gestação. Algumas dessas células ficam. A biologia da maternidade é, literalmente, uma fusão.
A identidade que se dissolve, e que se reconstrói
A matrescência não é só biológica. É existencial.
Daniel Stern, psiquiatra e pesquisador suíço, desenvolveu o conceito de "constelação da maternidade" nos anos 1990 para descrever como o universo psíquico de uma mulher se reorganiza ao redor de um novo eixo quando ela se torna mãe. Não é uma adição à identidade anterior — é uma reconfiguração de toda a estrutura.
Aurélie Athan, pesquisadora da Universidade Columbia e uma das maiores especialistas contemporâneas em matrescência, expandiu a definição de Raphael em trabalho publicado em 2018. Para Athan, a matrescência é uma passagem de desenvolvimento que abrange domínios biológico, emocional, social, político e espiritual — e pode recorrer a cada novo filho, com duração indeterminada.
É por isso que tantas mães descrevem aquela sensação desconcertante de não se reconhecerem. De sentirem saudade de quem eram antes, ao mesmo tempo em que não conseguem imaginar a vida sem essa nova versão de si mesmas. De amarem profundamente e se sentirem perdidas no mesmo momento. Não é patologia. Não é ingratidão. É o processo.
Lucy Jones descreve isso com uma clareza que poucas vezes se encontra na literatura sobre maternidade: a matrescência é uma metamorfose — não uma mudança gradual, mas uma transformação estrutural em que a mulher que existia antes precisa se dissolver para que uma nova configuração de si mesma possa emergir. E, como toda metamorfose, envolve um período de forma indefinida. Um tempo em que você não é mais quem era, mas ainda não sabe completamente quem vai ser.
O preço do silêncio
O problema não é a transformação em si. O problema é que ela acontece em silêncio, sem nome, sem preparação e sem suporte adequado.
Os dados são contundentes: 1 em cada 10 mulheres desenvolve alguma condição de saúde mental no primeiro ano de maternidade. Em mães com mais de um filho, um terço experiencia depressão pós-parto. Não são números pequenos — são dados epidemiológicos.
A pesquisadora Aurélie Athan argumenta, em artigo publicado pelo National Institutes of Health em 2024, que boa parte do sofrimento psíquico no período perinatal não é apenas clínico — é consequência direta da falta de um enquadramento cultural e científico adequado para a matrescência. Quando uma mulher não tem linguagem para o que está vivendo, ela tende a interpretar os sinais da transformação como falha pessoal. A confusão vira vergonha. A ambivalência vira culpa.
Dar um nome ao processo não resolve tudo — mas muda a pergunta. Em vez de "o que há de errado comigo?", a mulher passa a se perguntar: "o que está acontecendo comigo — e como posso atravessar isso com mais apoio?"
Matrescência não tem prazo de validade
Uma das coisas mais importantes que a pesquisa contemporânea deixa clara é que a matrescência não termina quando o bebê completa seis meses, nem quando você "volta à rotina", nem quando para de amamentar.
Ela recomeça a cada filho. Se aprofunda ao longo dos anos. Tem fases agudas e fases de integração. Pode, como sugere Athan, durar a vida inteira — se expandindo para incluir a maternagem de filhos adolescentes, adultos, e até o exercício da avosidade.
O que muda é a intensidade. O que não muda é o fato de que a maternidade continua te transformando — se você estiver disposta a deixar.
O que fazer com tudo isso
Saber que existe uma palavra para o que você vive é um ato de cuidado.
Alexandra Sacks diz que o simples fato de ter linguagem para a experiência — de poder dizer "eu estou em matrescência" em vez de "eu não estou me sentindo bem" — já cria um espaço diferente para o que vem a seguir. A linguagem é política. Nomear é validar.
Lucy Jones vai além: ela argumenta que enquanto a matrescência for tratada como assunto privado, de responsabilidade individual de cada mulher resolver sozinha em casa, a estrutura que torna a maternidade tão solitária e exaustiva continuará intacta. O que as mães precisam não é de mais conteúdo de autocuidado — é de comunidade, de reconhecimento e de suporte real.
E Dana Raphael — que cunhou o termo mais de cinquenta anos atrás — já dizia que o tempo que leva para uma mulher se tornar mãe precisa de estudo. Precisa de atenção. Precisa de respeito.
Estamos chegando lá. Devagar, mas chegando.
Referências
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JONES, Lucy. Matrescence: On the Metamorphosis of Pregnancy, Childbirth, and Motherhood. Allen Lane / Scribner, 2023.
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HOEKZEMA, Elseline et al. Pregnancy leads to long-lasting changes in human brain structure. Nature Neuroscience, v. 20, n. 2, p. 287–296, 2017.
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HOEKZEMA, Elseline et al. Mapping the effects of pregnancy on resting state brain activity, white matter microstructure, neural metabolite concentrations and grey matter architecture. Nature Communications, 2022.
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SACKS, Alexandra. The Birth of a Mother. The New York Times, 8 maio 2017.
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SACKS, Alexandra. A New Way to Think About the Transition to Motherhood. TED Talk, maio 2018.
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ATHAN, Aurélie M. Reviving Matrescence: The Developmental Transition to Motherhood. Teachers College, Columbia University, 2018.
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ATHAN, Aurélie M.; REEL, Marcie H. A critical need for the concept of matrescence in perinatal psychiatry. PMC / National Institutes of Health, 2024.
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STERN, Daniel N.; BRUSCHWEILER-STERN, Nadia; FREELAND, Alison. The Birth of a Mother: How the Motherhood Experience Changes You Forever. Basic Books, 1998.
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RAPHAEL, Dana. The Tender Gift: Breastfeeding. Prentice-Hall, 1973.
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BHATT, Priya et al. Fetal microchimerism and maternal health during and after pregnancy. Obstetrics & Medicine, 2016.
Esse artigo foi produzido pela equipe Easymama com base em pesquisa científica e referências bibliográficas verificadas. As informações têm caráter informativo e educativo, e não substituem acompanhamento médico ou psicológico.
